
Ia eu lá pelas 18:00h, após deixar minha amiga no ponto do ônibus, no calçadão de Boa Viagem. Pelas extremidades do Parque Dona Lindu, onde visitei as obras do artista plástico Aberlado da Hora, com esculturas e retratos e uma pequena poesia, chamada "Meninos do Recife", no saguão principal do salão de artes plásticas do parque.
Por volta dessa hora atravessei a rua, depois de comer uma empada de camarão, em um quiosque, devagar e contemplando um pouco a minha praia que um dia não fará mais parte do meu convívio freqüente, já que ano que vem viverei em outra cidade...
Estava atravessando a avenida, quando avistei dois meninos de rua, cheirando cola e colhendo algo do chão, passei por eles em uma distância comum a todas as outras pessoas/pedestre que temem assaltos e abordagens de rua, mas despercebida e com a cabeça na "lua", não percebi que eles me seguiam...
quando virava a esquina, no final da calçada, senti uma enorme força em minhas costas à atacar minha mochila,em um reflexo só, olhei para trás e chutei com uma força e raiva descomunal, mirando qualquer coisa que estivesse em minha frente. E então eu os vi, com seus olhos miúdos inebriados, e escutei: Que isso Tia...?
Ainda olhavam-me na tentativa de encontra espaço para uma nova abordagem, fiquei ali parada, com a postura ereta, as mão tencionadas e um olhar impávido e intrépido.
Nos olhos negros de cada uma dessas crianças, de dois pequenos corpos me fiz fera a lutar pela sobrevivência, assim como eles, em suas jornadas perdidas nas ruas.
Os dois pequenos logo viram que nada ali tirariam e foram embora, simplesmente rindo...
sensibilizada por questões de ordem pessoal não suportei a fera contida, porém necessária, e pus-me à chorar como uma criança que ainda assusta-se com garras, olhos e dentes.
Dois seres pequeninos incumbidos de tamanha ferocidade ausentes de candura e das primeiras maravilhas da vida, a infância. Andando, ainda chorando, pelas ruas de Setúbal me perguntei : Quem entre todos é a vítima?
Espero que um dia essas crianças possam se alimentar de estruturas dignas, tanto quanto as que tive, e possam se alimentar de um pouco de humanidade.
Então me ponho em um momento de reflexão de possível esperança, nada concreta...
Este era o poema que a pouco havia lindo em meu passei, para espairecer e alimentar a mente, minutos antes do acontecido.
"Meninos do Recife"
“São habitantes anônimos
dessa cidade alagada,
de limo e pedra formada
sob marés
submersa
...
são apenas habitantes
dessa cidade alagada.
Atirados sobre a lama.
Sobre as marés da desgraça.”
Aberlado da Hora